Elegância em peso
A capa da Elle francesa de fevereiro com a modelo Tara Lynn, acompanhada do subtítulo “The Body” (O Corpo), levou muitas pessoas a me questionarem se a “ditadura da magreza” na moda estaria, enfim, dando os seus últimos suspiros. Creio que essa foto nos traz alguma luz sobre o assunto.
Observe Tara Lynn. Uma mulher linda, mas como uma beleza mais “comum”, mais próxima da realidade. Há identificação na imagem, afinal, quantas mulheres se encaixam no padrão 1,80m de altura e 50 kg?
Nessa era tão democrática na qual vivemos, em que pessoas comuns são alçadas à categoria de celebridades pela internet, nada mais natural que caminhemos para ”desencaixotar” os padrões. Que enxerguemos, enfim, que a beleza não tem apenas um peso — mas vários. E todo mundo se sinta bem em sua própria pele.
Não creio que teremos uma mudança de padrão às avessas, ou seja, que daqui para frente ”o corpo” será mais cheinho. Creio na valorização da beleza dentro do biótipo de cada um. Verdade seja dita: tem gente que, por mais que se esforce, nunca vai ser magra. Não faz parte de sua natureza. Assim como tem pessoas com 1,80m e 50 kg que são supersaudáves, pois esse é o seu biótipo.
E a valorização do nosso biotipo — seja ele qual for — com as peças certas é o caminho da elegância. A atriz Octavia Spencer provou na festa do Oscar isso que estamos conversando. Gordinha, escolheu um vestido que delineou sua silhueta sem, no entanto, marcá-la. Deixou um “respiro” próximo ao pescoço para alongá-lo e usou de bordados diagonais para dar a sensação de “afinar a silhueta”, principalmente na região da cintura. E, pasmem, está de vestido claro! Como sempre digo, cores não têm poder de engordar, mas sim modelagens!
Está na moda respeitar a natureza, não? Que tal, então, começarmos pelo respeito a NOSSA natureza?
O (polêmico) retrato de Renata Ceribelli
Assisti há pouco a nova versão do clássico de Oscar Wilde, “O retrato de Dorian Gray”. A estória (que não vou contar por aqui pois recomendo que leiam ou assistam!) foi escrita em 1890 e, creio eu, nunca esteve tão atual. Será que nossa geração, no mesmo anseio da eterna beleza e juventude do protagonista Dorian, não está, como ele, ”perdendo a alma”?
Acompanhei a polêmica da capa da edição de agosto da Revista Claudia, com o retrato da jornalista Renata Ceribelli (que está linda, por sinal). A revista foi acusada de abusar do Photoshop, já que, como todo o Brasil acompanhou no quadro do Fantástico, a jornalista suou a camisa e emagreceu — mas, pelo que parece, não chegou às medidas de modelo exibidas na capa. Com toda repercussão o diretor de arte da revista a defendeu, dizendo que recursos antigos de contraluz, aliados a escolha da roupa e posição, colaboraram para que Renata ficasse ainda mais magra. 
Será que, como Dorian, não buscamos uma perfeição inexistente, que faz com que vivamos permanentemente insatisfeitos? E que, ao enfatizar essa perfeição, a mídia não ajuda a alimentar a ansiedade da grande maioria das mulheres que nunca caberá nesse padrão?
Cirurgias para redução de estômago, ao meu ver, foram banalisadas — mesmo deixando sérias sequelas como cheguei a acompanhar de pessoas próximas. E não foi apenas uma vez que ouvi pessoas declarando que estavam “tentando engordar para chegar ao peso mínimo para passarem pela cirurgia (?).” Bocas à la Angelina Jolie estão por toda parte.
Sou amante do belo. Mas resisto a achar que a beleza está numa “perfeição” obtida a qualquer custo; artificial — e, principalmente, quando a ânsia de obtê-la ou de permanecer eternamente jovem torna-se a maior de todas as (pre)ocupações. Nesse caminho, sobra a metáfora de Dorian Gray: como já repetia minha avó, “por fora bela viola, por dentro pão bolorento”.


