Eduardo Miguel

MODA DO FUTURO:do conceito ao concreto

Sempre trabalhei com conceitos. E me esforçava para torná-los o mais palpável possível embora percebesse que não era tão simples assim entender a tal “moda sustentável”.

Não posso, então, deixar de registrar o quanto tem sido maravilhosa a experiência com o espaço MODA DO FUTURO: enfim, ficou fácil de entender o conceito de “moda sustentável” pois ele está lá, na forma de criações incríveis, prontos a serem tocados, sentidos, experimentados.

A admiração de todos, conhecedora dessas criações há anos que sou, me espanta e encanta. São poucos os que conhecem o trabalho de designers e estilistas que pautam seu trabalho sob a ótica do cuidado com o outro e com o planeta. E elas não só encantam os olhos mas enchem de esperança o coração ao ver que sim, é possível fazer diferente.

Fotos: Clóvis Zanette

A ponte

Cresci em meio ao comércio de moda; negócio de minha família. Não há como negar a influência — desde a adolescência dizia que queria ser jornalista de moda, profissão na época meio incomum. Mas em vez de vendas eram mais ideias e conceitos que me interessavam, assim como a paixão pela escrita e pela imagem. 

Adentrando pelo universo da sustentabilidade, em meados de 2003, me encantei com o trabalho de estilistas e designers cuja produção era toda pensada em cima de questões socioeconômicas e ambientais. Gente brilhante que criara arte com o que outrora era lixo — coisas bacanas mesmo, já que não é apenas por ser sustentável que podemos avalizar que é belo. E eles conseguiam aliar o belo com o sustentável.

Desde então, trabalhando nessa área, comecei a perceber a dificuldade de se entender o conceito de moda sustentável. De torná-lo palpável, acessível. Quase sempre usava de cases para ilustrar o que falava e aí começava a sacar meus objetos de uso próprio para demonstrar. “Viu essa bolsa?” — e contava toda a história da peça.

E aí,invariavelmente, surgia a pergunta: “como faço para ter uma?”. Hum,hum, não era tarefa tão fácil. A maioria dos achados não se obtinham na esquina; se espalhavam por vários lugares do país e mesmo quando se concentrava nas metrópoles o acesso era com horário marcado — dificuldades que, sejamos sinceros, fazia com que simpatizantes acabassem optando pelos produtos “made in China” aos sustentáveis locais.    

Em meio a debates internos e externos sobre a acessibilidade, pensei, porque não, além de difundir a moda do futuro no mundo virtual fazer o mesmo no real? Ser uma ponte – que leva a descobertas; que desvenda o acesso; que une o que está longe mas dentro do mesmo conceito?

E,assim, estou gerando o espaço-conceito MODA DO FUTURO. Quero muito ser essa ponte; divulgar e disponibilizar  tudo o que eu mais gosto de moda sustentável — ainda que isso me custe voltar atrás ao juramento que fiz com minha família que nunca teria uma loja (não por nada, mas dizia que não era minha praia). Esta é!

Lampejos da moda do futuro

 

Sou jornalista de moda — nunca escrevi sobre outro assunto. Ainda na faculdade, havia me esquecido de entregar um trabalho quando, às pressas, regidi um texto sobre moda. No final da aula, o professor me chamou. E eu, que já esperava a bronca pelo texto “nada a ver” fui contratada para escrever semanalmente para o jornal do qual ele era dono. E nunca mais parei. Minha atuação na área de moda foi expandindo — do texto, passei a produzir e editar fotos; desfiles; ministrar aulas e consultorias para empresas.

Mas assim como a moda está no meu DNA, as questões socioambientais também. Sou inconformada e questionadadora por  natureza; idealista até o último fio de cabelo. A dor do outro dói em mim — não consigo simplesmente virar o olhar para mim mesma e minha vida boa enquanto há tanto sofrimento ao lado. Difícil pra mim desfrutar da paisagem aqui da minha janela quando sei que em nome de interesses maiores o ecossistema vai sendo destruído — pura bobagem já que dependemos de todo o equilíbrio para sobreviver.

Encontrei meu caminho em meados de 2003, quando percebi que minha atuação podia ir além do trabalho que fazia; me atentei que poderia usar a moda como veículo para difundir conceitos sustentáveis. E mais: pouco a pouco surgia (e surge) novos estilistas e designers engajados, cujas peças trazem arraigadas as preocupações socioambientais. E sempre que vejo o trabalho de um deles me emociono.

 

Como o do Eduardo Miguel, que acabo de visitar em seu ateliê em Santo Antônio do Pinhal (SP). Sua matéria-prima são os galhos recolhidos; madeiras doadas por fazendeiros; resíduos dos mais diferentes que sobraram em algum lugar e alguém lembrou de guardar porque sabia que o artista reaproveita tudo.

Presenciei uma cena um tanto que especial enquanto estive lá: um senhor que trabalha na confecção de violinos entregava para Eduardo Miguel resíduos como crina de cavalo que sobrara de seu ateliê. Ao mesmo tempo chegou um outro senhor, dono de uma pizzaria, para recolher as sobras de madeira do Eduardo Miguel para usar como lenha em sua pizzaria. Ah, que inspirador, como seria o mundo se seguissémos esse ciclo? E, penso comigo, a minha missão é difundir e fazer disso virar moda. Afinal, essa é a moda do futuro.  

Designer faz arte com madeiras recolhidas

 

Impossível não se apaixonar pelo trabalho do designer Eduardo Miguel. Com troncos de árvores recolhidos e madeiras doadas, ele compõe móveis, objetos de decoração e jóias que são pura poesia. Nada leva pregos, é tudo artesanalmente encaixado — e nem produtos químicos. Sem contar o estilo de vida do artesão e de sua esposa Cristina, totalmente sustentável, que dá vontade de levar para casa também… Seu ateliê fica em Santo Antônio do Pinhal, cidade pequenininha no interior de São Paulo onde  sustentabilidade é levada a sério pelos artesãos e proprietários de pousadas locais.  

Visite: eduardomiguelpardo.blogspot.com

Siga o Moda Do Futuro!


Moda do Futuro quer ouvir você.