Arquivo do mês: julho 2012

Inovação e (é) transformação

Delicados pássaros de papel pendurados na entrada. Mesas feitas com base de pneus velhos ou reutilizando caixas de feira. Pufes de jornal. Sofás com rolos de papelão.

O centro de convenções de Vitória ganhou decoração sustentável e elegante para receber o Vitória Moda Show, evento de moda capixaba que alia moda e sustentabilidade. Fui como palestrante e fiquei encantada em constatar que esta aliança foi muito além do discurso e da bela decoração.

 

 

Estudantes, confeccionistas e simpatizantes lotaram os três dias de palestra: o estilista da marca Neon, Dudu Bertholini, e a gerente de negócios da WSGN, Clarissa Araújo, também estiverem entre os palestrantes do evento, que se propôs a trazer informação, conscientização e reflexão para o público. E mais que isso: as marcas que desejavam se tornar mais sustentáveis recebiam consultoria para colocar ideias em prática (iniciativa que adorei, já que todo mundo tem boa vontade mas nem sempre sabe como concretizar as ideias…)

Falei sobre inovação. “Criando luxo do lixo” é uma palestra que traz reflexão sobre o processo produtivo e inspira com vários cases de designers; estilistas e marcas que estão na vanguarda da criação sustentável. E que transformaram em beleza o que, para a maioria nós, não passa de lixo — tal qual Vik Muniz com suas obras de arte feitas com sucata que ganharam o mundo.

Fui levar uma dose de inspiração — e no final, recebi em dobro! Conheci trabalhos interessantíssimos como de Micca Wentz e Jaqueline Chiabay, ambas artistas plásticas capixabas. Micca conduz um projeto chamado “Equilibrium”, no qual  faz bolsas e acessórios usando lona descartada de eventos e publicidade. Jacqueline Chiabay reutiliza retalhos de couro em tramas de tricô, crochê e macramê que compõem peças modernas e sofisticadas. “A reciclagem é um meio para reciclar gente”, me disse Micca, que trabalha com capacitação de detentos de segurança máxima do estado. Jacqueline trabalha com mulheres. Enquanto produzem suas peças, que dão nova vida ao que seria descartado, elas dão um novo sentido àqueles que também precisam ser transformados.

 

 

Elegância sem tamanho

Dia de gravação do quadro “Tapa no Visual”. Entro numa loja e a vendedora dispara: “que pena, só trabalhamos com manequins até 42″. Partimos para outra. Nessa, a solícita equipe garante: “nossa modelagem 44 coresponde ao 46, pode provar”. Nossa participante entra no provador. Equipe monta luz, todo mundo a postos. Em poucos minutos percebemos que não, não corresponde ao 46. Indicam uma nova loja no shopping — que sim, tem roupas acima de 46, mas nada que possa favorecer uma jovem de vinte e poucos anos. Neste dia senti na pele o constrangimento de quem é jovem, gordinha e sofre para encontrar o que vestir.

O assunto não é novo. Há 12 anos fiz uma reportagem para a revista UMA sobre o assunto. Ouvi clientes;  marcas  e entidades ligadas ao vestuário. Algumas marcas declaram que suas roupas não vestiriam bem tamanhos maiores: “não combina com o perfil da marca”. Entidades dizem que  a falta de padronização de modelagem dá margem para que cada marca tenha a sua. Ou seja, você provavelmente veste uma numeração de uma marca e uma maior ou menor de outra. Clientes, com razão, reclamam.

Impulsionados pela abertura externa às modelos “plus size” como Tara Lynn, capa da revista Elle de fevereiro e pelos números que apontam que a população está, de fato, mais gordinha, gigantes do varejo como C&A e Renner recém lançaram coleções “plus size”. Felizmente surgem também marcas especializadas com roupas mais moderninhas — afinal, ninguém merece viver exclusivamente de “escuro ou estampas miúdas”.

Analisando as coleções apresentadas, a assinada por Preta Gil para C&A têm mais bossa. Ainda assim, apresenta algumas peças mais “perigosas”, como a saia lápis que ressaltar o efeito “ampulheta” de quem tem quadris muito largos. A bermuda branca estilo ciclista da Renner também segue essa mesma linha.

Em qualquer coleção, seja qual for nosso biótipo, haverão peças que nos deixarão incríveis e outras que nem precisam nos acompanhar fora do provador. Um olhar crítico e um bom espelho são nossos grandes aliados na busca da elegância — que, quem disse, que mora no número 38?

Tripla Aventura

A convite da revista de bordo “Na Poltrona” contei a aventura de nossa família em Bonito, no Mato Grosso do Sul. Aqui, compartilho com vocês o artigo, com o desejo que desperte o gostinho de desbravar  paraísos ecológicos ao lado dos seus pequenos — que, certamente, como  você, guardarão essas lembranças deliciosas para sempre.

“A jornalista e consultora de moda Danielle Ferraz não abandonou o gosto e a prática de se aventurar pela natureza após se tornar mãe de trigêmeos. Ao contrário, descobriu que acompanhada de seus pequenos “Indiana Jones” a diversão é ainda maior. Ela mesma narra para Na Poltrona a visita de sua família a um paraíso ecológico – a cidade de Bonito, no Mato Grosso do Sul – que certamente será guardada com muito carinho na lembrança e no coração de cada um deles, e nunca mais será esquecida. Se for verdadeiro que criar bem filhos é “fazer com que eles guardem belas memórias da infância”, Danielle e seu marido Fernando estão cumprindo com honra ao mérito a missão de pais. 

“A frase ‘viajar com crianças é uma aventura’ ganha duplo – ou triplo! – sentido quando o roteiro inclui ecoturismo e… trigêmeos! Leonardo, Bárbara e Lorenzo ainda não foram à Disney mas já vivenciaram experiências em meio a natureza para nenhum ecoturista botar defeito. Vovó fica apavorada, é verdade, mas levar as crianças a paraísos ecológicos não é apenas seguro, como também muito divertido.

Este ano elegemos a cidade de Bonito, no Mato Grosso do Sul, para conhecer – destino há tempos “paquerado”, mas que só se mostrou viável para nossa família agora que as crianças têm 6 anos, idade mínima para a maioria dos passeios.

A aventura começa ainda em casa, na hora de arrumar as malas. Com a chegada dos trigêmeos precisei me tornar muito prática – ou nem saía de casa! Com a temperatura da semana devidamente pesquisada (e algumas peças contrárias às indicadas – vai que a meteorologia erra), me lancei no desafio a que sempre nos propomos, o de viajar com bagagem ‘enxuta’, sem excessos. E o destino ajuda: roupas confortáveis e despojadas, como camisetas, bermudas e trajes de banho, são as peças mais usadas para desfrutar das aventuras em Bonito. Assim duas malas foram suficientes para levar tudo o que precisaríamos (ufa!).

Organização “britânica”

A organização da cidade de Bonito já impressiona antes mesmo de se chegar ao local. Ao pesquisar sobre os passeios descobri que havia necessidade de reservá-los com antecedência, já que para cada um deles é emitido um voucher com autorização da prefeitura. Os passeios são pagos, agendados por horário (britânico, diga-se de passagem!), acompanhados por guia e, dessa forma, limitados – medidas que contribuem para preservar as belezas naturais locais.

Optamos por fazer um passeio por dia. Dá para se aventurar em até dois passeios ao dia, mas como todos exigem uma boa dose de esforço físico achamos que poderia ficar ‘puxado’ para os nossos pequenos “Indianas Jones”. Nossas escolhas: Boia Cross no Rio Formoso; flutuação no Rio Sucuri e no Aquário Natural e passeio na Fazenda Ceita Core,  roteiro que poderia ser desfrutado por toda a família. Há, claro, passeios mais radicais, como o rapel no Abismo Anhumas ou a visita à caverna Boca da Onça, mas esses ficaram para uma próxima visita, quem sabe, acompanhados por nossos futuros adolescentes…

 

Bonito na medida do bolso

Opções de hospedagem não faltam. Bonito é uma cidade que vive do turismo e que se organizou para receber amantes da natureza com hospitalidade e estrutura ímpares. Há desde albergues até resorts; pousadas charmosas e outras bem rústicas – o critério fica a cargo do gosto e do bolso de cada viajante. E do estilo da viagem, claro, porque uma pousada-dormitório está de bom tamanho para o jovem que vai passar o dia todo entre as aventuras que Bonito oferece.

Buscamos mais estrutura a fim de que, após os passeios, pudéssemos aproveitar o hotel. Nos surpreendemos com a qualidade e infraestrutura do hotel que elegemos, o Zagaia, que pelas fotos na internet parecia mais tímido do que de fato é. Diferentemente de muitos hotéis que “carregam” a definição de resort na logomarca por oferecerem uma piscina, o Zagaia fazia jus ao termo, com várias opções de lazer, refeições caseiras e saborosas e até monitores – para a alegria de pais exaustos!

 

 

Mamãe, tem uma cobra ali…

  Ecoturismo, segundo a Embratur, é um “segmento de atividade turística que utiliza de forma sustentável o patrimônio natural e cultural, incentiva sua conservação e busca a formação de uma consciência ambientalista através do ambiente, promovendo o bem-estar das populações envolvidas.”  Intitulada de a “capital brasileira do ecoturismo”,  Bonito é um destino para quem gosta de contato próximo com a natureza – com alguns pequenos sustos  que esse contato pode propiciar.

Nosso primeiro passeio foi o Boia Cross no Rio Formoso. Confesso que no momento em que vi meus pequenos aventureiros, cada um em sua boia para descer as corredeiras de um quilômetro do Rio Formoso, me deu um frio na barriga. “Onde eu fui me meter?” – não pude deixar de pensar ao vê-los partir sozinhos (as boias são individuais) rio abaixo. O frio na barriga se transformou em medo quando vi (pasmem!) uma cobra sucuri deitada numa das margens… Mas o guia explicou que, como o ecossistema local é equilibrado, a sucuri não nos oferece perigo já que encontra na natureza os animais que de fato fazem parte de sua cadeia alimentar, como peixes, sapos, aves, tartarugas, antas…(nós, humanos, graças a Deus não fazemos mas sem a possibilidade de comida à vista ela pode sim nos atacar!). Por via das dúvidas achei melhor eu, meu marido e um dos guias nos posicionarmos ao lado das crianças no restante da aventura que acabou com todos são e salvos – e felizes.

Outro susto foi no belíssimo Aquário Natural, localizado na Reserva Ecológica Baía Bonita. Além da flutuação (mergulho com snorkel durante o qual você flutua para observar a fauna e a flora sob as águas cristalinas),  o passeio inclui também a “Trilha dos Animais” – caminhada num imenso parque onde se pode se avistar animais da região, muitos deles ameaçados de extinção. Na mata que não acaba mais, há pontos de observação: em um deles, tivemos a sorte de encontrar a “Jacaroa do Nilo”, apelido dado à fêmea de jacaré em referência a personagem Tereza Cristina, da novela global Fina Estampa.

De uma ponte de madeira não muito alta, mas cercada por aramado de proteção, encontramos a “Jacaroa” tranquila, tranquila ao lado de seus ovos. De repente, um turista do grupo derrubou sem querer uma garrafa de água na cabeça do jacaré fêmea – que deu um pulo e agarrou a garrafa ainda no ar. Susto geral! Mas creio que mais que as crianças (elas apenas chegaram mais perto da gente e se mostraram curiosas) quem se assustou mesmo foi a “Jacaroa do Nilo”, acordada com uma garrafada, para desespero da guia que lá se foi chamar o veterinário, nos alertando que tirar aquele plástico do ambiente era urgente e ia dar trabalho…

 

Infraestrutura nos receptivos

A maioria dos passeios se encontra dentro de fazendas que compõem o polo turístico. Uma parceria da iniciativa privada e da prefeitura local que deu certo. Há profissionalismo com o turista, aliado ao acolhimento caseiro.  A maioria dos passeios oferece almoço – comida de fazenda bem feitinha. Redários para uma “sesta” após o almoço e piscina também ficam à disposição dos visitantes. Na Fazenda Ceita Corê, nome que em tupi- guarani significa “terra dos meus filhos” e onde nos esbaldamos em  lindas cachoeiras e lagos cristalinos, é oferecido até um delicioso lanche da tarde… em boa hora, é verdade, já que após trilhas, mergulhos e até passeios a cavalo todo mundo fica morrendo de fome. Aliás, papais, Bonito também é indicado para abrir o apetite das crianças!

 

Belezas de tirar o fôlego

Não foram poucos os momentos que, diante da beleza natural, cheguei a me emocionar. Exclamações eufóricas também partiram das crianças durante nossa estadia, que  durou 6 dias (incluindo os deslocamentos até Bonito, que se encontra a 290 quilômetros da capital do Mato Grosso do Sul, Campo Grande). Mesmo a viagem sendo um pouco “puxada”, já que nos deslocamos, ao todo, por 1047 quilômetros de São Paulo até Bonito, valeu cada minuto de percurso mesmo com as crianças perguntando: “quanto falta para chegar”? Deixamos Bonito com um gostinho de quero mais e com a certeza de que Léo, Lorenzo e Bárbara nunca se esquecerão dessas aventuras que, mais do que diversão, se desdobrarão em amor e respeito pela ‘nossa casa’, o planeta Terra.

 

 Bonito & seguro para crianças

  •    -  Seguindo a recomendação da pediatra tomamos a vacina contra a febre amarela, transmitida por mosquitos silvestres. A vacina é disponibilizada gratuitamente em postos de saúde. Não tivemos problema algum em relação a possíveis reações.
  •  -   Não economize no filtro solar e no repelente! Passávamos nas crianças primeiro o filtro e, após a secagem, o repelente – medida repetida durante várias vezes, diariamente. Desmitificando: fomos menos picados em Bonito do que em viagens ao interior de São Paulo.
  • - Necessaire com medicação básica para crianças é bem-vinda em toda viagem. Costumamos levar: um termômetro, um antitérmico, um xarope antialérgico, uma pomada para picadas, antisséptico e ban-aid. Felizmente, os medicamentos só foram passear e voltaram intactos…
  • - A cidade possui boa infraestrutura e farmácias que entregam nos hotéis. Caso precise de algo extra é fácil providenciar.
  • - Nos passeios, carregue uma mochila para os pequenos com água, toalha, uma troca de roupa e o duo-imprescindível, repelente  e filtro solar. E um saquinho para colocar o seu lixo, seguindo o mandamento do ecoturismo de “deixar só saudades e levar apenas lembranças”.
  • - Durante a maioria dos passeios calçados tipo Crocs são mais aconselháveis do que chinelos ou tênis. Eles podem ser usados pelas crianças nas flutuações e secam mais rápido.
  • - Importante: os pequenos devem saber nadar. Bonito tem água por toda a parte e, apesar das medidas de segurança como uso de coletes salva-vidas, saber nadar é mais do que bem-vindo para que todos desfrutem com segurança a aventura que esse paraíso proporciona. Aproveite!

Site oficial de Bonito: www. bonito.ms.gov.br

 

O que é, para você, a moda do futuro?

Compartilho o que respondi numa entrevista sobre moda e sustentabilidade  à revista Hype . E te pergunto: para você, o que é a moda do futuro?

“A moda do futuro privilegia o indivíduo em vez da massificação. Vivemos numa era extremamente democrática e a moda é um recurso para expressão pessoal. É muito importante que as pessoas tenham isso em mente ao fazer suas escolhas.

A moda do futuro não visa a produção em massa as custas da destruição – do meio ambiente e do outro. Pelo contrário, procura minimizar impactos ambientais, seja através da tecnologia; do reuso; de evitar o desperdício; da substituição de matérias-primas e também evitando o lucro a custas de mão-de-obra tratada de maneira indigna. Repetir o tratamento dado ao trabalhador chinês, por exemplo, para reduzir custos é a antítese do sustentável.

A moda do futuro também diz respeito a consumidora de moda. Ela não é “fashion victim”, pelo contrário, sabe o que a valoriza e aproveitar bem seu guarda-roupa. Não “enfrenta” dores da alma com compras. É uma consumidora mais consciente. Privilegia a qualidade à quantidade; o personalizado feito de forma ambientalmente equilibrada ao massificado chinês”.

 

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