Arquivo do mês: maio 2010

Slow Fashion

Quem está de fora do mercado de moda certamente não deve entender nada: nem ao menos chegou o inverno e esta semana já começam os desfiles e lançamentos das coleções primavera-verão.  Ok, os lançamentos ocorrem antes para que os lojistas possam fazer os seus pedidos e se preparar para a nova temporada. A questão é que, de fato, funcionava assim antigamente — hoje não mais.

Com o advento da internet e a globalização, todas as informações tornaram-se disponíveis em tempo real e, democraticamente, para todos. E, o consumidor, passou a ser bombardeado o tempo todo com novidades — que ele quer ter AGORA. E assim criou-se um ciclo sedento de novidades não por estação ou temporada mas dia a dia. E hoje, um look de um desfile de verão de uma grife internacional já está adaptado no dia seguinte para o inverno brasileiro, nas vitrines de locais como o Bom Retiro, por exemplo.

” Está tudo tão acelerado que as liquidações de inverno começam antes mesmo da estação chegar”, comentou comigo a gerente de marketing de uma rede de varejo, afirmando entender porque tantas pessoas atualmente só compram nas liquidações. E essa rapidez causa estragos, já que o capital de giro de muitos lojistas fica no estoque, que acaba sendo vendido, dependendo do caso, quase no custo na época das liquidações. E tome fôlego para começar tudo de novo!

Em contrapartida, designers sustentáveis confidenciam as dificuldades que tem em aumentar suas produções e atender demandas maiores já que dependem de matérias-primas naturais ou reutilizadas que não são compradas num click  ou telefonema. Eles dependem de uma mão-de-obra que, na maioria das vezes, está em processo de qualificação — ONGs e comunidades que não tem o cronômetro das grandes oficinas e não “atiçam” a competição de quem produz mais por dia. Diria que é o “slow fashion”  — e a espera faz parte desse movimento. Espera-se a matéria-prima; o tempo de tecer; de esculpir; de (re) criar. Reconhecem que, mesmo dentro desse processo, falta uma dose extra de dinamismo que qualquer negócio requer para ser sustentável (afinal, um dos principíos da sustentabilidade é ser economicamente viável). É um dos elos que faltam para a moda sustentável se tornar mais (re)conhecida.

Enquanto escrevo toca meu telefone. O produtor que me entrega orgânicos passa a lista do que está disponível esta semana. E banana, pergunto? “A banana ainda não está no tempo de ser colhida, não amadureceu”, diz. Em épocas de fast fashion e fast food aí está um grande desafio para nós, consumidores: aprender a esperar. Só assim daremos fôlego até mesmo à moda que, movida pelos nossos impulsos de querer ter ”aquela-peça-que-acabou-de-aparecer-no-desfile-internacional-hoje”, rompe etapas; acelera o calendário e colhe ” bananas antes da hora”.

Seria lixo…virou acessório!

O post “Rastro de Retalhos” recebeu várias manifestações. Muita gente nunca havia parado para pensar que a sobra dos tecidos das nossas roupas se transforma num lixo pouco aproveitado que, quando não destinado, vai parar nos aterros — ou ainda nas galerias e bueiros, como relatei.

A boa notícia é que não são poucos os artesãos que “vivem” dos retalhos. Por todo o Brasil há pessoas e comunidades que tiram sua renda das peças confeccionadas com o que iria para o lixo. Um exemplo é Gisele Moura, artesã de Campinas, que confecciona acessórios inteiramente com reaproveitamento de tecidos e materiais doados. “Garimpo lojas, confecções, costureiras e peço para não jogarem fora seus “lixos”. Explico sobre o meu trabalho e peço para doarem. Minha matéria-prima são as sobras que elas jogariam no lixo — o que também faz com que minhas peças sejam únicas, exclusivas”, conta.

 

A pedido do MODA DO FUTURO, Gisele Moura ensina um passo a passo básico, para iniciantes se aventurarem em transformar retalhos em acessórios. Para começar, uma flor, que você pode usar com broche e dar um charme extra a tops, camisas e até mesmo outros acessórios. Se estiver dúvida, confira o vídeo do passo a passo no You Tube: http://bit.ly/bMNdUb    Mãos à obra!
 
 
 
Contato de Gisele Moura Acessórios: www.flickr.com/giselemouraacessorios ou gi_moura@yahoo.com.br
 
PS. Aqui no MODA DO FUTURO não faltam ideias e talentos que fazem arte com materiais que iriam para o lixo: confira em posts anteriores o trabalho com madeira de Eduardo Miguel; as biojóias de Suzana Rodrigues e os acessórios com reutilização de plásticos da Maria Lixo.

Estilo de sobra…

…e não roupas sobrando! Nas consultorias que ministro insisto que não precisamos ter roupas espalhadas por toda a casa (o que, de fato, presencio!) para esbanjar estilo. Ao contrário, é preciso ter um guarda-roupa inteligente, com boas bases para poder “incrementar” com acessórios e peças mais “fashion”.

Antes de dar algumas regrinhas para esbanjar estilo, começo por um exercício, que vou convidá-la a fazer: desenhe-se de corpo inteiro. Tente colocar no papel as proporções de cada parte do seu corpo (não faz mal se é uma péssima desenhista, use setas e legendas se preciso para expressar como você se vê. De frente a  um espelho e, de preferência, acompanhada de uma amiga sincera, veja se você se enxerga bem — ou se está precisando ajustar seus parâmetros (ou ainda consultar um oftalmologista!).

O mais curioso dessa dinâmica é que poucas descrições refletem as proporções do corpo realmente — e, o pior, costumamos exagerar nossos defeitos. São incontáveis as mulheres que se declaram com quadril largo e que, na verdade, possuem o quadril completamente proporcional para sua estrutura.

O primeiro passo para se ter estilo é se conhecer; ter ciência dos seus pontos fortes e fracos; o que lhe favorece e o que é melhor evitar. Sem esta consciência vamos comprando alucinadamente e sempre nos perguntamos porque não temos nada para vestir (isso lhe soa familiar?). As compras precisam ser pensadas — se não só são mais um amontoado de roupas paradas que, mais dia menos dia, vão acabar no lixo (sim, o destino final de tudo o que a gente não usa, mesmo se repassada adiante, no final do seu ciclo é este.)

Vencer a equação o que combina com sua personalidade; estilo de vida/ocasiões e a valoriza é a chave da criação de um look cheio de estilo. Já que não vivemos sem umas regrinhas para facilitar, finalizo com algumas dicas, ilustradas pelas alunas do Workshop Outono-Inverno 2010 MOB, que aprenderam a obter uma produção com estilo e podem inspirá-la a criar novos looks em seu guarda-roupa. Mãos à obra!

1. Invista nas sobreposições: elas conferem modernidade aos looks.

2. Misture texturas: tecidos refinados com jeans; tecidos mais suaves com rústicos.

3. Invista no brilho: uma peça paetizada ou bordada torna o look mais fashion e sofisticado.

4.Tire peças básicas da mesmice combinando-as com outras estampadas.

5.Os acessórios são os responsáveis por dar o tom do look: mais moderno; sofisticado; jovial — o que sua imaginação (e a ocasião) mandar!   

PS. Agradecimento as funcionárias da MOB que criaram, fotografaram e posam de modelos nas fotos acima.

O mundo pode ser mais maternal

                                     O mundo não é maternal

por Martha Madeiros

” É bom ter mãe quando se é criança, e também é bom quando se é adulto. Quando se é adolescente pensa que viveria melhor sem ela, mas é erro de cálculo. Mãe é bom em qualquer idade. Sem ela, ficamos órfãos de tudo, já que o mundo lá fora não é nem um pouco maternal conosco.

 O mundo não se importa se estamos desagasalhados e passando fome. Não liga se virarmos a noite na rua, não dá a mínima se estamos acompanhados por maus elementos. O mundo quer defender o seu, não o nosso. O mundo quer que a gente fique horas no telefone, torrando dinheiro.  Quer que a gente case logo e compre um apartamento que vai nos deixar endividado por 20 anos. O mundo quer que a gente ande na moda, que a gente troque de carro,  que a gente tenha boa aparência,  e estoure o cartão de crédito. 

Mãe também quer que a gente  tenha boa aparência, mas está mais preocupada com o nosso banho, com os nossos dentes e nossos ouvidos, com a nossa limpeza interna: não quer que a gente se drogue, que a gente fume, que a gente beba. 

O mundo nos olha superficialmente. Não consegue enxergar através. Não detecta nossa tristeza, nosso queixo que treme, nosso abatimento. O mundo quer que sejamos lindos, Sarados e vitoriosos,  para enfeitar ele próprio, como se fôssemos objetos de decoração do planeta.

 O mundo não tira nossa febre, não penteia nosso cabelo, não oferece um pedaço de bolo feito em casa. O mundo quer nosso voto mas não quer atender nossas necessidades. O mundo, quando não concorda com a gente, nos pune, nos rotula, nos exclui. O mundo não tem doçura, não tem paciência, não pára para nos ouvir.  O mundo pergunta quantos eletrodomésticos temos em casa e qual é o nosso grau de instrução, mas não sabe nada  dos nossos medos de infância, das nossas notas no colégio, de como foi duro arranjar o primeiro emprego. Para o mundo, quem menos corre, voa. Quem não se comunica se trumbica. Quem com ferro fere, com ferro será ferido.

 O mundo não quer saber de indivíduos, e sim de slogans e estatísticas…

 Mãe é de outro mundo. É emocionalmente incorreta: exclusivista, parcial, metida, brigona, insistente, dramática, chega a ser até corruptível se oferecermos em troca alguma atenção. Mãe sofre no lugar da gente, se preocupa com detalhes e tenta adivinhar todas as nossas vontades. 

Enquanto que o mundo propriamente dito exige eficiência máxima, seleciona os mais bem dotados e cobra caro pelo seu tempo. Mãe é de graça!”

PS. Investir tempo ( e não só o tal “tempo de qualidade” que exime nossas culpas, já que educar requer tempo e ainda não inventaram um modo de fazê-lo a distância) e se empenhar na formação de pessoas de bem, de caráter, com os olhos voltados aos cuidados com o outro e com o planeta é o primeiro — e mais importante – passo para um futuro mais sustentável. E um mundo mais maternal. Feliz Dia das Mães!

 

Rastro de retalhos

Manchete de hoje do jornal Folha de São Paulo (caderno cotidiano): “Retalhos entopem bueiros do Bom Retiro”. Segundo a reportagem, todos os dias as confecções da Rua José Paulino, pólo de comércio de roupas populares de São Paulo, produzem cerca de dez toneladas de retalhos que entopem galerias pluviais e causam enchetes na região. Grifo: dez toneladas/dia!

Enquanto muito se discute e se recomenda a utilização de algodão orgânico em rodas sustentáveis, creio que temos um problema ambiental mais urgente, já que a produção de orgânicos ainda é pequena; segmentada e insuficiente para gerir o mercado de moda. O que fazer com esse lixo têxtil  não reciclável, que não é aceito em aterros; vai parar nos bueiros — e pode demorar mais de 100 anos para se decompor ( período estimado de um tecido sintético com poliéster em sua composição)?

Tenho um apreço especial por designers que criam peças lindas e de qualidade com materiais que iriam parar no lixo. Exemplifico com a designer Juliana Suarez, da Maria Lixo, com suas bolsas únicas e incríveis feitas de um material desenvolvido por ela a partir de sacos plásticos. 

 Da mesma forma, de marcas como a pernambucana Refazenda, a estilistas, como a mineira Fernanda Ronconi e ONGS, como o Instituto Ecotece e o Florescer, há muitos dispostos a gerar beleza a partir dos retalhos que iriam para o lixo. Mas falta, sobretudo, organização. Os lojistas pedem à prefeitura uma solução. Mas não caberia a cada confecção cuidar do lixo que sua produção gera em vez de deixar acumular cerca de 300 toneladas por mês de retalhos, quantidade inviável de se repassar adiante? 

Finalizo com a afirmação irônica mas bem colocada da secretária-executiva da câmara, Kelly Cristina Lopes, à reportagem da Folha: “Se a gente descesse às galerias da José Paulino iria encontrar as 15 últimas coleções que passaram pelas vitrines”. Para bom entendedor, meia palavra basta.

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