Slow Fashion
Quem está de fora do mercado de moda certamente não deve entender nada: nem ao menos chegou o inverno e esta semana já começam os desfiles e lançamentos das coleções primavera-verão. Ok, os lançamentos ocorrem antes para que os lojistas possam fazer os seus pedidos e se preparar para a nova temporada. A questão é que, de fato, funcionava assim antigamente — hoje não mais.
Com o advento da internet e a globalização, todas as informações tornaram-se disponíveis em tempo real e, democraticamente, para todos. E, o consumidor, passou a ser bombardeado o tempo todo com novidades — que ele quer ter AGORA. E assim criou-se um ciclo sedento de novidades não por estação ou temporada mas dia a dia. E hoje, um look de um desfile de verão de uma grife internacional já está adaptado no dia seguinte para o inverno brasileiro, nas vitrines de locais como o Bom Retiro, por exemplo.
” Está tudo tão acelerado que as liquidações de inverno começam antes mesmo da estação chegar”, comentou comigo a gerente de marketing de uma rede de varejo, afirmando entender porque tantas pessoas atualmente só compram nas liquidações. E essa rapidez causa estragos, já que o capital de giro de muitos lojistas fica no estoque, que acaba sendo vendido, dependendo do caso, quase no custo na época das liquidações. E tome fôlego para começar tudo de novo!
Em contrapartida, designers sustentáveis confidenciam as dificuldades que tem em aumentar suas produções e atender demandas maiores já que dependem de matérias-primas naturais ou reutilizadas que não são compradas num click ou telefonema. Eles dependem de uma mão-de-obra que, na maioria das vezes, está em processo de qualificação — ONGs e comunidades que não tem o cronômetro das grandes oficinas e não “atiçam” a competição de quem produz mais por dia. Diria que é o “slow fashion” — e a espera faz parte desse movimento. Espera-se a matéria-prima; o tempo de tecer; de esculpir; de (re) criar. Reconhecem que, mesmo dentro desse processo, falta uma dose extra de dinamismo que qualquer negócio requer para ser sustentável (afinal, um dos principíos da sustentabilidade é ser economicamente viável). É um dos elos que faltam para a moda sustentável se tornar mais (re)conhecida.
Enquanto escrevo toca meu telefone. O produtor que me entrega orgânicos passa a lista do que está disponível esta semana. E banana, pergunto? “A banana ainda não está no tempo de ser colhida, não amadureceu”, diz. Em épocas de fast fashion e fast food aí está um grande desafio para nós, consumidores: aprender a esperar. Só assim daremos fôlego até mesmo à moda que, movida pelos nossos impulsos de querer ter ”aquela-peça-que-acabou-de-aparecer-no-desfile-internacional-hoje”, rompe etapas; acelera o calendário e colhe ” bananas antes da hora”.
Seria lixo…virou acessório!
O post “Rastro de Retalhos” recebeu várias manifestações. Muita gente nunca havia parado para pensar que a sobra dos tecidos das nossas roupas se transforma num lixo pouco aproveitado que, quando não destinado, vai parar nos aterros — ou ainda nas galerias e bueiros, como relatei.
A boa notícia é que não são poucos os artesãos que “vivem” dos retalhos. Por todo o Brasil há pessoas e comunidades que tiram sua renda das peças confeccionadas com o que iria para o lixo. Um exemplo é Gisele Moura, artesã de Campinas, que confecciona acessórios inteiramente com reaproveitamento de tecidos e materiais doados. “Garimpo lojas, confecções, costureiras e peço para não jogarem fora seus “lixos”. Explico sobre o meu trabalho e peço para doarem. Minha matéria-prima são as sobras que elas jogariam no lixo — o que também faz com que minhas peças sejam únicas, exclusivas”, conta.
Estilo de sobra…
…e não roupas sobrando! Nas consultorias que ministro insisto que não precisamos ter roupas espalhadas por toda a casa (o que, de fato, presencio!) para esbanjar estilo. Ao contrário, é preciso ter um guarda-roupa inteligente, com boas bases para poder “incrementar” com acessórios e peças mais “fashion”.
Antes de dar algumas regrinhas para esbanjar estilo, começo por um exercício, que vou convidá-la a fazer: desenhe-se de corpo inteiro. Tente colocar no papel as proporções de cada parte do seu corpo (não faz mal se é uma péssima desenhista, use setas e legendas se preciso para expressar como você se vê. De frente a um espelho e, de preferência, acompanhada de uma amiga sincera, veja se você se enxerga bem — ou se está precisando ajustar seus parâmetros (ou ainda consultar um oftalmologista!).
O mais curioso dessa dinâmica é que poucas descrições refletem as proporções do corpo realmente — e, o pior, costumamos exagerar nossos defeitos. São incontáveis as mulheres que se declaram com quadril largo e que, na verdade, possuem o quadril completamente proporcional para sua estrutura.
O primeiro passo para se ter estilo é se conhecer; ter ciência dos seus pontos fortes e fracos; o que lhe favorece e o que é melhor evitar. Sem esta consciência vamos comprando alucinadamente e sempre nos perguntamos porque não temos nada para vestir (isso lhe soa familiar?). As compras precisam ser pensadas — se não só são mais um amontoado de roupas paradas que, mais dia menos dia, vão acabar no lixo (sim, o destino final de tudo o que a gente não usa, mesmo se repassada adiante, no final do seu ciclo é este.)
Vencer a equação o que combina com sua personalidade; estilo de vida/ocasiões e a valoriza é a chave da criação de um look cheio de estilo. Já que não vivemos sem umas regrinhas para facilitar, finalizo com algumas dicas, ilustradas pelas alunas do Workshop Outono-Inverno 2010 MOB, que aprenderam a obter uma produção com estilo e podem inspirá-la a criar novos looks em seu guarda-roupa. Mãos à obra!
1. Invista nas sobreposições: elas conferem modernidade aos looks.
2. Misture texturas: tecidos refinados com jeans; tecidos mais suaves com rústicos.
3. Invista no brilho: uma peça paetizada ou bordada torna o look mais fashion e sofisticado.
4.Tire peças básicas da mesmice combinando-as com outras estampadas.
5.Os acessórios são os responsáveis por dar o tom do look: mais moderno; sofisticado; jovial — o que sua imaginação (e a ocasião) mandar!
PS. Agradecimento as funcionárias da MOB que criaram, fotografaram e posam de modelos nas fotos acima.
O mundo pode ser mais maternal
O mundo não é maternal
por Martha Madeiros
” É bom ter mãe quando se é criança, e também é bom quando se é adulto. Quando se é adolescente pensa que viveria melhor sem ela, mas é erro de cálculo. Mãe é bom em qualquer idade. Sem ela, ficamos órfãos de tudo, já que o mundo lá fora não é nem um pouco maternal conosco.
O mundo não se importa se estamos desagasalhados e passando fome. Não liga se virarmos a noite na rua, não dá a mínima se estamos acompanhados por maus elementos. O mundo quer defender o seu, não o nosso. O mundo quer que a gente fique horas no telefone, torrando dinheiro. Quer que a gente case logo e compre um apartamento que vai nos deixar endividado por 20 anos. O mundo quer que a gente ande na moda, que a gente troque de carro, que a gente tenha boa aparência, e estoure o cartão de crédito.
Mãe também quer que a gente tenha boa aparência, mas está mais preocupada com o nosso banho, com os nossos dentes e nossos ouvidos, com a nossa limpeza interna: não quer que a gente se drogue, que a gente fume, que a gente beba.
O mundo nos olha superficialmente. Não consegue enxergar através. Não detecta nossa tristeza, nosso queixo que treme, nosso abatimento. O mundo quer que sejamos lindos, Sarados e vitoriosos, para enfeitar ele próprio, como se fôssemos objetos de decoração do planeta.
O mundo não tira nossa febre, não penteia nosso cabelo, não oferece um pedaço de bolo feito em casa. O mundo quer nosso voto mas não quer atender nossas necessidades. O mundo, quando não concorda com a gente, nos pune, nos rotula, nos exclui. O mundo não tem doçura, não tem paciência, não pára para nos ouvir. O mundo pergunta quantos eletrodomésticos temos em casa e qual é o nosso grau de instrução, mas não sabe nada dos nossos medos de infância, das nossas notas no colégio, de como foi duro arranjar o primeiro emprego. Para o mundo, quem menos corre, voa. Quem não se comunica se trumbica. Quem com ferro fere, com ferro será ferido.
O mundo não quer saber de indivíduos, e sim de slogans e estatísticas…
Mãe é de outro mundo. É emocionalmente incorreta: exclusivista, parcial, metida, brigona, insistente, dramática, chega a ser até corruptível se oferecermos em troca alguma atenção. Mãe sofre no lugar da gente, se preocupa com detalhes e tenta adivinhar todas as nossas vontades.
Enquanto que o mundo propriamente dito exige eficiência máxima, seleciona os mais bem dotados e cobra caro pelo seu tempo. Mãe é de graça!”
PS. Investir tempo ( e não só o tal “tempo de qualidade” que exime nossas culpas, já que educar requer tempo e ainda não inventaram um modo de fazê-lo a distância) e se empenhar na formação de pessoas de bem, de caráter, com os olhos voltados aos cuidados com o outro e com o planeta é o primeiro — e mais importante – passo para um futuro mais sustentável. E um mundo mais maternal. Feliz Dia das Mães!
Rastro de retalhos
Manchete de hoje do jornal Folha de São Paulo (caderno cotidiano): “Retalhos entopem bueiros do Bom Retiro”. Segundo a reportagem, todos os dias as confecções da Rua José Paulino, pólo de comércio de roupas populares de São Paulo, produzem cerca de dez toneladas de retalhos que entopem galerias pluviais e causam enchetes na região. Grifo: dez toneladas/dia!
Enquanto muito se discute e se recomenda a utilização de algodão orgânico em rodas sustentáveis, creio que temos um problema ambiental mais urgente, já que a produção de orgânicos ainda é pequena; segmentada e insuficiente para gerir o mercado de moda. O que fazer com esse lixo têxtil não reciclável, que não é aceito em aterros; vai parar nos bueiros — e pode demorar mais de 100 anos para se decompor ( período estimado de um tecido sintético com poliéster em sua composição)?
Tenho um apreço especial por designers que criam peças lindas e de qualidade com materiais que iriam parar no lixo. Exemplifico com a designer Juliana Suarez, da Maria Lixo, com suas bolsas únicas e incríveis feitas de um material desenvolvido por ela a partir de sacos plásticos.
Da mesma forma, de marcas como a pernambucana Refazenda, a estilistas, como a mineira Fernanda Ronconi e ONGS, como o Instituto Ecotece e o Florescer, há muitos dispostos a gerar beleza a partir dos retalhos que iriam para o lixo. Mas falta, sobretudo, organização. Os lojistas pedem à prefeitura uma solução. Mas não caberia a cada confecção cuidar do lixo que sua produção gera em vez de deixar acumular cerca de 300 toneladas por mês de retalhos, quantidade inviável de se repassar adiante?
Finalizo com a afirmação irônica mas bem colocada da secretária-executiva da câmara, Kelly Cristina Lopes, à reportagem da Folha: “Se a gente descesse às galerias da José Paulino iria encontrar as 15 últimas coleções que passaram pelas vitrines”. Para bom entendedor, meia palavra basta.






